Um sonho de livros e de feiras
- Paulo Tedesco
- 22 de nov. de 2016
- 3 min de leitura
No último dia 15 de novembro encerrou-se mais uma edição da Feira do Livro em Porto Alegre. Uma feira que começou em 1955 e que chegou à sua 62ª edição, vigorosa e mostrando a importância desse tipo de evento para a cultura e para os leitores. Apesar de alguns números, como a queda de 19% nas vendas em relação ao ano anterior, bem como o número mais enxuto de atividades e bancas, o resultado foi bastante positivo, afinal seguiu marcando território e trazendo não somente muitos lançamentos de livros, como também reaproximando a população do mundo do livro numa capital que passa por momentos complicados de violência e abandono.
As vendas dos livros, por tradição, aqui não se dão somente de novos títulos, best-sellers e livros infantis importados e de baixa qualidade literária, algo tão comum em bienais como as do Rio e de São Paulo. A venda foi de títulos dos mais diversos, desde liquidações dos sebos, de livreiros e editoras conhecidas do público, até de títulos das editoras estrangeiras e universitárias das mais diversas, propiciando aquela diversidade tão fundamental para o mundo do conhecimento. Porque sem títulos universitários não há pesquisa, e sem pesquisa não há sequer bons livros de ficção, por melhor que se pretendam.
Foram 1,4 milhão de pessoas a passarem pela praça ao longo da feira, um feito e tanto para um mercado em que se enclausura o consumidor em shoppings e locais climatizados e de segurança ostensiva. E esse modelo, totalmente fora da maré consumidora das compras a distância e do mundo do ar condicionado e estacionamentos extorsivos, fez escola no Rio Grande do Sul. O estado tem, hoje, 497 municípios e, acreditem, destes mais de 100 feiras do livro ocorrem no modelo da capital Porto Alegre (além das inúmeras feiras realizadas dentro de escolas e universidades).
Público lota Feira do Livro de Porto Alegre | © Luis Ventura
Cidades pequenas, como a gloriosa Morro Reuter, por exemplo, tornaram-se referência nacional ao estabelecer um calendário de qualidade em torno do livro, trazendo para o interior do estado (a cidade está há uma hora da capital e tem pouco mais de cinco mil habitantes) escritores dos mais diversos, sempre aproximando o livro dos professores e do leitor mais jovem, em especial. O que até proporcionou o surgimento de um belo monumento ao livro, logo à entrada da cidade! O que, cá entre nós, parece um sonho...
Não à toa que muitos escritores que também se dedicam ao leitor jovem desde a pré-escola, no Rio Grande do Sul conseguem manter uma carreira ativa e muito intensa ao longo do ano. Pois é nessas feiras, abertas ao público e inteiramente gratuitas, por onde também passam os escritores iniciantes, muitos com autopublicação, e que encontram nelas o esteio ideal para os passos inicias de suas carreiras. Honestamente, desconheço autor que não privilegie o lançamento do seu primeiro livro para a feira de sua cidade ou região.
Torço, muito, para que superemos esse momento de crise política e econômica, e que recuperemos nossa democracia, tão maculada por golpes e distorções, e que nossas feiras abertas se reproduzam e se expandam. Mas também, e principalmente, torço para que a nossa Feira de Porto Alegre, organizada de forma privada pela Câmara Riograndense do Livro, porém com forte apoio público e óbvio respaldo da população, prossiga no passo que anda: firme e sem se deixar levar por modismos e tanto diz-que-diz. Um viva à bibliodiversidade e à vontade de quem ama e faz o livro seu modo de vida.